Existência Relativa

13 de July de 2007

elevador.

Filed under: de fora pra dentro — Mãe de 04 @ 9:40 PM

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida

Que eu já tô ficando craque em ressurreição.

Bobeou eu tô morrendo

Na minha extrema pulsão

Na minha extrema-unção

Na minha extrema menção,

de acordar viva todo dia.

Há dores que sinceramente eu não resolvo,

sinceramente sucumbo.

Há nós que não dissolvo

e me torno moribunda do doer daquele corte

do haver sangrento e forte

que vem no mesmo malote das coisas queridas.

Vem dentro dos amores

dentro das perdas de coisas antes possuídas

dentro das alegrias havidas.

Há porradas que não têm saída

há um monte de “não era isso que eu queria”.

Outro dia, acabei de morrer

depois de uma crise sobre o tema existencialismo

3º mundo, ideologia e inflação…

E quando penso que não

me vejo ressurgida no banheiro

feito punheteiro de chuveiro.

Sem cor, sem fala

nem informática nem cabala

eu era uma espécie de Lázara

poeta ressuscitada

passaporte sem mala

com destino de nada!

A gente tem que morrer tantas vezes durante a vida

ensaiar mil vezes a séria despedida

a morte real do gastamento do corpo

a coisa mal resolvida

daquela morte florida

cheia de pêsames nos ombros dos parentes chorosos

que eu já tô ficando especialista em renascimento.

Hoje, praticamente, eu morro quando quero:

às vezes só porque não foi um bom desfecho

ou porque eu não concordo.

Ou uma bela puxada no tapete

ou porque eu mesmo me enrolo

Não dá outra: tiro o chinelo…

E dou uma morrida!

Não atendo telefone, campainha…

Fico aí camisolenta em estado de éter

nem zangada, nem histérica, nem puta da vida!

Tô nocauteada, tô morrida!

Morte cotidiana é boa porque além de ser uma pausa

não tem aquela ansiedade para entrar em cena

É uma espécie de venda,

uma espécie de encomenda que a gente faz

pra ter depois um produto de maior resistência

onde a gente se encolhe pra nascer de novo

onde a gente se recolhe (e quem não assume nega)

e fica feito a justiça: cega

Depois acorda bela

corta os cabelos

muda a maquiagem

reinventa modelos

reencontra os amigos que fazem a velha e merecida

pergunta ao teu eu: “Onde cê tava?

tava sumida, morreu?”

E a gente com aquela cara de fantasma moderno,

de expersona falida:

– Não, tava só deprimida.

elisa lucinda escreveu, enquanto eu sentia.

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1 Comment »

  1. lindo esse texto…

    Muita sensibilidade, adorei… obrigado por posta-lo…

    eu te amo

    Comment by rc — 25 de July de 2007 @ 2:18 AM | Reply


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